domingo, 30 de novembro de 2008

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sábado, 29 de novembro de 2008

Abaixo o romantismo educacional


"Nota do editor - Fazer uma mídia sustentável significa, na maior parte das vezes, colocar o dedo na ferida em temas muito polêmicos. Reconhecer que os seres humanos tem os mesmos direitos é uma coisa, querer que sejam iguais é outra muito diferente. O artigo de Martha San Juan França publicado abaixo, sobre o livro de Charles Murray é um desafio à reflexão e ao debate não apenas sobre o sistema educacional dos Estados Unidos, mas de todo o mundo".

Por Martha San Juan França, para o Valor, de São Paulo

Nos anos 90, o cientista político americano Charles Murray causou furor ao lançar o livro "The Bell Curve - Intelligence and Class Structure in American Life" ("A Curva do Sino"), em parceria com o psicólogo e professor de Harvard Richard Hermstein. Na obra, eles sustentam que a inteligência medida por testes de QI (coeficiente de inteligência) é um fator preditivo três vezes melhor do que as condições sociais ou a educação para indicar o desempenho no trabalho, a renda e até as chances de gravidez fora do casamento de determinados grupos.
Bloomberg
O Harvard College em Cambridge, Massachusetts: "É um mito afirmar que todos podem alcançar e ultrapassar seu potencial máximo de inteligência", afirma Charles Murray

Agora, Murray reforça a sua tese sob outro ângulo. Em seu novo livro: "Real Education: Four Simple Truths for Bringing America's Schools Back to Reality" (Educação Real: Quatro Verdades Simples para Trazer as Escolas Americanas de Volta à Realidade), ele afirma que não há necessidade - e se trata até de desperdício - de obrigar todos os estudantes a cursar uma faculdade. Seu argumento se baseia nos dados das avaliações educacionais, que demonstram que 80% dos jovens estão abaixo da média de competência cognitiva necessária para lidar com o rigor do ensino universitário, que, por definição, obriga a refletir sobre questões intelectualmente complexas.

"Vamos ser realistas", diz Murray. "O diploma normalmente comprova que a pessoa teve uma educação liberal clássica. Significa que tem condições de ler e entender textos difíceis. Mas centenas de jovens nunca conseguirão ler e entender, por exemplo, 'A Ética' de Aristóteles. O resultado é que temos faculdades que oferecem cursos fracos, aumentam as notas e fingem que os seus alunos estão fazendo atividades de nível universitário quando, de fato, não estão. De todas as contribuições que meu livro pode trazer, a que mais me agradaria ver seria o reconhecimento da fraude que o diploma representa."

Bloomberg
Formandos de MBA da Harvard: situação financeira global é um bom exemplo do desajuste entre novas tecnologias da informação e a habilidade cognitiva necessária para saber usá-las, aponta especialista
Murray falou ao Valor antes de viajar pela primeira vez ao Brasil, onde participou de seminário organizado pelo programa de pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento Humano da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para ele, uma das "grandes falácias da sociedade americana" é o que qualifica de "romantismo educacional" ou a insistência de que "toda criança pode aprender quase tudo se tiver professores e ambiente adequados". "É impossível educar todos do mesmo modo, assim como é um mito afirmar que todos podem alcançar e ultrapassar seu potencial máximo de inteligência. Apenas um número limitado de pessoas está apto a realizar tarefas que exigem capacidade geral para raciocinar, resolver problemas e aprender. Defendo a idéia de que todas as pessoas devem ter algum tipo de treinamento depois do segundo grau, mas a universidade é um modo pouco eficiente de ir atrás dos ensinamentos práticos necessários em ocupações menos exigentes do ponto de vista cognitivo", afirma.

Em outras palavras, Murray prega uma mudança de objetivo dos jovens. "Vamos acabar com esse mito de que a carreira universitária é tudo e de tratar o diploma como um símbolo de status", explica. "O objetivo de quem está nessa fase da vida é atingir a maturidade, tendo descoberto algo que gosta de fazer e considera satisfatório. Se esse algo é física nuclear, então é preciso ir para a universidade porque é lá que está a oportunidade. Se o objetivo é ser um chef de cozinha, um comerciante ou uma auxiliar de enfermagem, então o caminho é fazer alguns cursos práticos antes de começar a trabalhar."

Para o cientista político, a sociedade transformou o diploma em um sinal de competência profissional e atualmente quem não tem o título universitário é discriminado na hora de conseguir emprego. Mas não deveria ser assim. "Exceto no caso de algumas profissões específicas, como engenharia ou medicina, o diploma não dá garantia nenhuma de competência profissional. Representa apenas um pré-requisito sem custo [para o empregador] de perseverança e certo grau de inteligência. Mas trata-se de um requisito muito pobre em termos de informação. Melhor seria substituí-lo por testes vocacionais específicos."

A polêmica do QI

De muitas maneiras, o novo livro de Murray amplia aquilo que já vinha falando desde os tempos do lançamento de "A Curva do Sino". Na época, ele chamava a atenção para o fato de que as pessoas mais inteligentes, que batizou de "elite cognitiva", estavam se isolando em termos competitivos do restante da população e isso contribuía para a desigualdade econômica e social. Essas afirmações provocaram uma avalanche de críticas, sobretudo porque em dois capítulos Murray afirmava, baseado em dados estatísticos, que os negros americanos têm em média um QI mais baixo do que o de outros grupos sociais, como brancos, judeus, asiáticos. Estes últimos, também segundo os dados de Murray, têm melhor desempenho que os brancos. Na época, foi chamado de racista e sua foto chegou a ser colocada ao lado da de Hitler em um telejornal.

Nada muito diferente do que ocorreu recentemente, quando o Prêmio Nobel James Watson, co-descobridor da estrutura do DNA, caiu em desgraça ao dar uma entrevista ao jornal "Sunday Times", em que se dizia "pessimista" sobre o futuro da África, pois as políticas sociais para o continente eram baseadas no fato de que a inteligência dos negros é igual à dos brancos, "apesar de todos os testes dizerem que não". Ou quando o reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, acabou perdendo o posto ao dizer que havia explicações biológicas para o fato de existirem poucas mulheres na elite científica.

Por trás dessas afirmações está a sempre explosiva questão do "fator G", ou seja, a medida da inteligência geral que se deve à predisposição genética e, portanto, não depende unicamente do grau de treinamento ou da escolaridade da pessoa avaliada. A partir dessa variável, geralmente aceita por todos os pesquisadores, discute-se se a inteligência é uma habilidade única, aplicável a muitos cenários, ou se representa a soma de habilidades específicas, que a pessoa pode ou não possuir independentemente. O debate estende-se também à questão de como a inteligência, medida pelos testes de QI, se traduz no desempenho diário ou na evolução acadêmica.

Para especialistas como Murray, os testes de QI e outros que medem a capacidade cognitiva dão uma boa idéia da inteligência de grupos, etnias ou gênero. Daí suas afirmações mais polêmicas. Mas ele insiste que é importante entender que os dados são aplicados a médias de populações e não podem ser extrapolados para indivíduos em particular. Sua preocupação se refere a políticas sociais e à excessiva ênfase, aplicada em seu país, à educação igual para todos, que, em sua opinião, nivela por baixo.

"As evidências científicas comprovam que a educação não pode, por si só, ser responsável pelas desigualdades intelectuais, sociais e econômicas", confirma José Aparecido da Silva, professor do Departamento de Psicologia e Educação da unidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). "Dizer que crimes, drogas, desemprego, filhos ilegítimos, pobreza são frutos, simplesmente, do baixo nível escolar, é o que mais grassa nos discursos político-econômicos e educacionais."

José Aparecido concorda com Murray: "No Brasil, é difícil falar sobre essas questões porque temos problemas mais urgentes relacionados a má nutrição, desagregação familiar, escolas inadequadas, etc. Mas uma consulta aos dados publicados nas avaliações educacionais - nacionais e internacionais - permite, de imediato, inferir que metade das crianças está abaixo da média de competência cognitiva, ou seja, abaixo da média de distribuição de índices de inteligência que servem de parâmetro, o que, por conseqüência, limita severamente seu desempenho escolar. E mesmo o sistema educacional mais perfeito pouca diferença faz no desempenho desses estudantes."

Segundo o pesquisador brasileiro, "é preciso substituir a ré educação pela ré inteligência. E tal substituição, semelhante a outros dardos que ferem o âmago do ego humano, é de difícil aceitação e muitas vezes constitui uma questão perigosa sobre a qual podemos apenas ouvir falar e nunca investigar sistematicamente".

Qualificação por baixo

Sendo um dos acadêmicos do conservador American Enterprise Institute, em Washington, Murray está preocupado com a qualificação por baixo. Ele acredita que os numerosos programas governamentais americanos, especialmente a ação afirmativa que estabelece o sistema de cotas para negros, representa uma forma de discriminação contra os mais capazes que não são necessariamente brancos. Mais preocupante, segundo ele, é o fato de que a sociedade tecnológica requer o aproveitamento dos mais inteligentes para seguir evoluindo.

"Não tenho nada contra o fato de investir dinheiro naqueles em desvantagem acadêmica, desde que tenha resultado. Mas isso não está acontecendo e, o que é pior, estamos negligenciando o tipo de educação que pode fazer diferença, como ensinar a ganhar a vida a despeito dessa desvantagem. Além disso, negligenciar os mais talentosos é moralmente tão ruinoso quanto criar programas que não beneficiam aqueles menos inteligentes", diz.

Um dos primeiros pesquisadores a tentar estabelecer modelos para compreender as diferenças na inteligência das pessoas, o psicólogo Earl Hunt, professor emérito da Universidade de Washington, concorda que não é uma boa idéia levar mais do que 50% dos estudantes à universidade. Segundo ele, desde que o ambiente de aprendizado seja adequado, todo mundo consegue aprender o básico no primeiro grau e não há necessidade de separar classes. "As coisas são diferentes quando os estudantes vão para o segundo grau", contrapõe. "A partir daí, eu acredito em classes especiais para os mais inteligentes."

Hunt, que também esteve no seminário promovido pela UFMG, é um dos consultores do projeto Study of the Latin American Intelligence (Slatint), ainda em andamento, que estuda amostras de jovens adolescentes latino-americanos com idade entre 14 e 15 anos para identificar o peso das habilidades específicas que carregam no fator G. O grupo de Carmen Flores-Mendoza levanta a hipótese de haver diferenças entre as culturas no peso dessas habilidades. "Por exemplo, o raciocínio matemático pode ter um peso maior no fator G na cultura asiática, enquanto o raciocínio verbal predomina nas culturas latinas", afirma. "É uma hipótese ainda não verificada em nível internacional e cuja resposta deverá auxiliar na política educacional latino-americana."

Autor do livro clássico "Will We Be Smart Enough?" (Seremos Espertos o Suficiente?), de 1995, Earl Hunt utiliza a teoria cognitiva aliada a projeções demográficas e pesquisas psicométricas para medir a capacidade da força de trabalho atual de responder aos desafios representados pelas novas tecnologias de informação. Em entrevista ao Valor, ele disse que a situação financeira global é um bom exemplo do desajustamento entre essas novas tecnologias e a habilidade cognitiva necessária para saber usá-las. "Parte da crise ocorreu porque o setor financeiro passou por uma série de inovações, ampliação de mercado, avanço tecnológico e integração global que ocorreram de forma muito rápida", observou. "O resultado é que poucas pessoas entenderam os riscos que estavam sendo criados."

Segundo Hunt, a preocupação com os efeitos da mudança de tecnologia é antiga. "Sócrates já dizia que a invenção da escrita levava à deterioração da memória", exemplifica. "Os religiosos do século XV acusavam a imprensa de ser perniciosa para a sociedade, na medida em que levava mais pessoas a ler e interpretar a 'Bíblia' sem a ajuda da igreja. Atualmente, as pessoas se perguntam se o Google está nos tornando mais estúpidos. Acho que em todas as épocas as pessoas reagem às novas tecnologias. Ler e imprimir mudam o modo como as pessoas pensam... e também o Google. O desafio da educação é ensinar a refletir sobre essas mudanças."

domingo, 23 de novembro de 2008

Diesel - Reportagem de André Trigueiro

Caros, muito boa a reportagem e o comentário do jornalista André Trigueiro sobre o acordo fechado em relação ao percentual de enxofre do diesel vendido nas cidades. Vale a pena ouvir.
http://www.cbn.com.br/wma/wma.asp?audio=2008%2Fcolunas%2Fmundo_081101.wma

terça-feira, 18 de novembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Exame: Só a base da pirâmide salva

Para o especialista Stuart L. Hart, as tecnologias limpas só ajudarão a salvar o planeta se ganharem escala com as populações de baixa renda


Divulgação
Hart: "Os pobres são mais do que consumidores, são parceiros de negócios"

Por Ana Luiza Herzog

Revista EXAME Bem menos afeito a holofotes que seu amigo indiano C.K. Prahalad, com quem escreveu o já histórico artigo Fortuna na Base da Pirâmide, em 2002, o americano Stuart L. Hart é hoje uma das maiores referências mundiais em estratégias empresariais para as populações de baixa renda. Professor da Universidade Cornell, Hart tornou-se uma sumidade ao ajudar a revelar para as empresas as imensas oportunidades de negócios escondidas nas populações de baixa renda - e, sobretudo, por ser um crítico voraz à maneira como as companhias vêm lidando com esses consumidores ao longo das décadas. Para Hart, as empresas não têm demonstrado preocupação com os impactos ambientais e sociais de suas investidas. Com isso, estão perdendo a chance não só de ganhar dinheiro mas também de ajudar o planeta a resolver parte de seus dilemas. Em entrevista a EXAME, ele explica por que é importante que as empresas integrem a seu modelo de negócios as duas grandes revoluções hoje em curso - a da base da pirâmide e a das tecnologias limpas - e por que isso representa uma oportunidade de negócios ainda maior do que a que ele preconizou no início desta década.

EXAME O senhor e C.K. Prahalad foram os primeiros a escrever sobre os negócios na base da pirâmide e sua relação com o movimento de responsabilidade social corporativa, há dez anos. De lá para cá, como o assunto evoluiu?
Stuart L. Hart É curioso, mas quando eu e Prahalad escrevemos nosso primeiro artigo sobre o tema, em 1998, e ele começou a circular na internet, fomos vistos como pesquisadores "underground", e nossas idéias, como alternativas demais. Dois anos depois, já estávamos ocupadíssimos, sendo requisitados para falar sobre o assunto, mas o ritmo de aceitação ainda era lento. O grande salto aconteceu mesmo nos últimos cinco anos. Hoje, centenas de empresas têm iniciativas para a base da pirâmide.

Mesmo com esse salto, o senhor não acha que a maioria das empresas continua separando o conceito de sustentabilidade dos negócios para a base da pirâmide?
Sim. Nos últimos oito anos, vimos o desabrochar de duas revoluções: a da base da pirâmide e a das tecnologias limpas. Esses dois movimentos, igualmente cruciais para a busca da sustentabilidade, caminharam até agora de maneira isolada. O desenvolvimento de tecnologias que produzem menos impactos no meio ambiente esteve até agora muito voltado para o topo da pirâmide. Além disso, pensou-se muito no aspecto da tecnologia e muito pouco no modelo de negócios, ou seja, em como comercializar essas inovações. Só nos Estados Unidos, o setor de venture capital e dezenas de empresas privadas estão despejando milhões de dólares nesse mercado, mas ninguém sabe ainda como essas tecnologias chegarão aos consumidores. Enquanto isso, o movimento de negócios para a base da pirâmide ganhou corpo sem muita preocupação com o meio ambiente, adotando o que chamo de "estratégia do empurra". Ou seja, as empresas pegaram os produtos que possuíam, estudaram como poderiam oferecê-los em embalagens menores ou mais baratas e estenderam os canais de distribuição para que eles chegassem até as classes mais pobres.

Essa "estratégia do empurra" foi muito criticada. Qual a sua opinião sobre ela?
Chamo essa primeira fase vivida pelas empresas de "base da pirâmide 1.0". Ela é legítima. A crítica foi que muitas empresas estavam simplesmente colocando produtos em embalagens diferentes e tentando vendê-los aos pobres - precisassem eles ou não daquilo -, tirando o pouco de dinheiro que eles possuíam. Tenho de concordar que essa análise não é totalmente descabida. Para que uma estratégia de base da pirâmide seja bem- sucedida no longo prazo, ela deve ter uma abrangência maior. Não há nada de errado em adaptar produtos para vendê-los aos pobres. O que a empresa deve considerar, no entanto, é o impacto que aquele produto provocou na comunidade. Ele permitiu que as pessoas tivessem mais tempo livre para o lazer? Que elas ficassem mais saudáveis? Que elas melhorassem de vida? Não acredito que apenas vender por vender seja uma estratégia sustentável no longo prazo.

Existem riscos nas duas revoluções que o senhor comentou (a da base da pirâmide e a das tecnologias limpas)?
Sim. No caso das tecnologias limpas, o risco é termos mais uma bolha se não conseguirmos encontrar boas maneiras de comercializá-las. Já no movimento da base da pirâmide o risco é de colapso ambiental. Afinal, se o único objetivo das empresas continuar a ser gerar mais atividade econômica e consumo na parte inferior da pirâmide de renda, assim como fizemos no topo, iremos ainda mais rápido ladeira abaixo em termos ambientais e veremos o fim do jogo.

E qual é a saída?
Promover uma grande convergência desses dois movimentos. Trata-se de um desafio colossal, mas também de uma oportunidade sem precedentes para as empresas. Elas precisam entender que essas tecnologias limpas devem ser desenvolvidas e testadas, de maneira ambientalmente correta, na base da pirâmide.

Como convencê-las a fazer isso?
O argumento é simples: trata-se do melhor ambiente para tirar do papel essas tecnologias. É muito improvável que tecnologias verdes revolucionárias sejam aceitas com facilidade nos mercados desenvolvidos, nos quais os consumidores já estão acostumados com o conforto e a facilidade das tecnologias tradicionais. A receita para que os negócios muito inovadores vinguem é incubá-los na base da pirâmide e, somente depois, levá-los para o topo.

O senhor pode dar exemplos de empresas que estão conseguindo fazer isso?
Eu citaria a Cosmos Ignite, uma empresa privada, com sede em Nova Délhi, criada por empreendedores da Índia e da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. Ela fatura apenas 1 milhão de dólares, mas nasceu em 2004 e está crescendo num ritmo absurdo. Ela fabrica uma espécie de lanterna de LED que é movida a energia solar e pode ser facilmente transportada. O equipamento custa cerca de 50 dólares no varejo, é financiado por um período de até cinco anos e está disponível em países como Índia, Guatemala e Afeganistão. As famílias pagam cerca de 5 dólares por mês - bem menos do que elas gastariam com querosene para lampiões, velas ou outros esquemas mambembes. Pense no potencial de crescimento que uma empresa como essa tem, já que as estimativas são de que existam ainda 2 bilhões de pessoas no mundo sem acesso a eletricidade.

Suponho que a Cosmos Ignite já esteja na fase que batizou de "base da pirâmide 2.0", certo?
Sim. Trata-se de uma fase na qual é preciso enxergar os pobres não só como consumidores mas também como parceiros de negócios. A fase 2.0 significa ruptura. Afinal, produtos e serviços inovadores para a base da pirâmide só surgirão se as empresas adotarem mudanças radicais em seu modelo de negócios.

Em vez de optar por essas rupturas, muitas empresas apostam em projetos de ecoeficiência, buscando a redução do consumo de energia e água, por exemplo. Qual o limite desse modelo?
Não prego que as empresas deveriam parar de pensar em melhorias contínuas, mas parar de adotar a idéia de que não é possível abraçar nenhuma outra lógica. A ecoeficiência é pautada pela idéia de melhoria contínua, e é ótimo que as empresas sejam ecoeficientes. Mas as companhias não vão garantir a sustentabilidade do planeta simplesmente fazendo de um jeito melhor aquilo que já fazem hoje. Precisamos mais do que isso.

Fonte: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0930A/especiais/so-base-piramide-salva-395981.html

domingo, 16 de novembro de 2008

Não entendo as prioridades, o supercarro

Este era um carro de muita potência.

por Dal Marcondes

No Estadão deste domingo havia uma sobrecapa. Um anúncio de carro que com um chamado a pensar. Mas pensar em que? Havia cinco item sobre os quais o publicitário queria que eu, supostamente um consumidor, pesasse:

1 – Pense potência – Bom, minha reflexão sobre isto me fez lembrar um comentário da psicóloga Ana Verônica Mautner: o homem precisa do motor para carregar o pênis. A potência não é dele, é do carro. Acho que isto quer dizer que não comprarei um carro pela potência.

2 – Pense tecnologia – Há tempos venho dizendo que precisamos rever os conceitos de tecnologia para automóveis. O carro mais econômico do Brasil (segundo o fabricante), pesa 830 quilos. Dez vezes mais do que eu. Bom, já me acho gordo tendo de carregar dez quilo a mais do que deveria. Porque tenho que me sentir feliz carregando dez vezes mais o meu peso apenas para me locomover. Acho que um carro poderia ser muito mais leve, precisando de muito menos combustível para se mover e, portanto, também menos potência.

3 – Pense conforto – Gosto de conforto. Adoro me sentar bem para assistir TV, deitar na rede para ler um livro ou vestir roupas confortáveis. Mas o que significa conforto em um carro? Botões para fazer coisas como subir e baixar vidros, ajustar banco e espelhos? Bom, andar de carro já é um conforto, portanto, prefiro meu dinheiro em menos poluição, menos CO², menos espaço ocupado na cidade e mais autonomia em quilômetros por litro de combustível.

4 – Pense segurança – Desta eu gostei. Assisti ao filme EU ROBÔ outro dia, estrelado pelo Will Smith. Muito legal, apesar de não ter quase nada a ver com a história original do Isaac Asimov. Bom, mas no filme o mocinho dirigia um carro que, ao bater, enchia a cabine com uma espuma que endurecia e protegia os ocupantes. Como ainda não chegamos lá, gostaria de ter airbags por todos os lados. Incrível é que o anúncio Falava em design arrojado, motor de ultima geração e que o carro tem dois arbags frontais. Nem um de ladinho, para proteger a gente de colisões em cruzamentos, estas coisa que acontecem nas cidades.

5 – Pense Beleza – Bem, neste caso pensei na beleza das minhas filhas, dos netos que ainda vou ter, da minha mulher. Todos que seriam beneficiados com menos poluição, mais segurança, menos potência etc.

Quando vamos fazer uma reflexão sobre o tipo de carro que precisamos? É um meio de transporte, deve ser leve, econômico, seguro, poluir o mínimo possível e emitir quase nada de CO². Tem Muita gente falando em combustíveis alternativos, eu já ficaria contente com veículos que conseguissem extrair mais de 50 quilômetros de um litro de gasolina de boa qualidade.

Vamos continuar a vender carros baseados na potência e na adrenalina para andar em cidades onde mal se engata a terceira marcha. As estatísticas de mortes no trânsito mostram quanto estamos estimulando a juventude a “extrair” potência dos motores e a pensar muito pouco em segurança, eficiência energética e estas coisinhas mais que tem a ver com futuro e qualidade de vida para todos, e não apenas para que está atrás do volantes de um supercarro. (Envolverde)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Debate na USP isola falácias sobre exigência do diploma

por Maricio Tuffani
do blog Laudas Críticas - http://laudascriticas. wordpress.com

O debate “Obrigatoriedade do diploma”, realizado na noite de 6 de novembro na Escola de Comunicações e Artes da USP, foi um grande avanço nessa polêmica que se intensificou no Brasil a partir da Ação Civil Pública de outubro de 2001, proposta pelo Ministério Público Federal de São Paulo. Parte da programação da Semana de Jornalismo 2008 da ECA-USP e organizado por estudantes dessa Escola, o encontro, que aconteceu no Auditório Freitas Nobre, do Departamento de Jornalismo e Editoração, proporcionou o entendimento sobre os equívocos e falácias que permeiam as discussões sobre esse tema.

Ao participar desse evento, tive a satisfação de ter como colegas de mesa Pedro Pomar, editor da Revista Adusp (da Associação dos Docentes da USP) e membro da oposição do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, e Maria Elisabete Antonioli, professora de jornalismo da Universidade Ibirapuera e das Faculdades Integradas Rio Branco. A direção da mesa foi exercida por Paula Sacchetta, aluna do segundo ano de Jornalismo. (Em resposta à pergunta que já deve ter surgido na cabeça muitos leitores, aqui vai a resposta: sim, ela é parente — neta — do incomparável Hermínio Sacchetta).

O mais importante do debate foi o interesse dos debatedores nos argumentos contrários. Diferentemente do que tem sido registrado dos encontros entre antagonistas dessa polêmica, em que predomina o exercício de se dirigir somente às suas próprias platéias, ali foi possível uma discussão ponto a ponto de diferentes aspectos da exigência da formação superior específica em jornalismo estabelecida no Brasil por meio do Decreto-lei nº 972, de 17/10/1969.

Mais que ressaltar os principais embates ocorridos nessa discussão, vale a pena destacar os consensos nela obtidos. Teremos muito a ganhar em novos debates presenciais ou virtuais se esses pontos forem, se não seguidos, pelo menos conhecidos. Tento resgatá-los a seguir, e coloco-me à disposição de Pomar, Elisabete e dos demais presentes ao debate para corrigir eventuais equívocos.

Os consensos


1. Não à desqualificação dos oponentes. Como bem destacou Pomar, tem sido inadequado o procedimento da Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) de reduzir à mera defesa de interesses patronais as críticas à obrigatoriedade do diploma. Em contrapartida, a defesa dessa exigência não pode ser identificada automaticamente com a defesa de interesses corporativistas de sindicatos, donos de faculdades particulares ou professores de jornalismo. Na prática, esses expedientes consistem no apelo à falácia do Argumentum ad hominem.

2. O decreto-lei e a Junta Militar. Não é válido o argumento de que a obrigatoriedade do diploma não é legítima porque foi estabelecida pelos ministros militares que governaram o país em 1969. Não se pode escamotear, como bem destacou Maria Elisabete, o fato de que várias reivindicações foram levadas meses antes por sindicalistas ao governo. (A esse respeito, vale a pena ler o artigo o artigo “Liberdade de expressão e regulamentação profissional”, de José Carlos Torves, publicado em 26/08/2008 no Observatório da Imprensa.) No entanto, divergi dos outros dois debatedores ao observar que pode e deve ser explorado juridicamente o fato de esse decreto-lei não se basear em nenhuma outra lei, mas somente no AI-5 e no AI-16, revogados desde 1979.

3. Não confundir a formação com sua exigência. Deve-se evitar a expressão “contra o diploma”. O que está em questão não é a formação, mas a sua obrigatoriedade. Melhor dizendo, a obrigatoriedade da formação superior específica em jornalismo para o exercício dessa profissão. A ressalva pode parecer óbvia, mas a divisão simplória entre “favoráveis ao diploma” e “contrários ao diploma” tem servido para potencializar equívocos, principalmente entre aqueles que estão pouco informados sobre a questão.

4. Jornalismo não é só prática. Não é verdade que o jornalismo se aprende somente com a prática. Esta não é suficiente para o exercício da profissão de acordo com seus preceitos éticos e técnicos. Além disso, o jornalismo exige boa formação cultural e humanística. A divergência responsável entre favoráveis e contrários à obrigatoriedade está na forma com a qual deve ou pode ser obtida ou comprovada essa formação.

5. Qualidade dos cursos não serve como argumento. A afirmação de que os cursos de jornalismo, em sua maioria, são ruins não serve para invalidar a sua obrigatoriedade. Esse argumento pode justificar a suspensão ou o fechamento caso a caso de cursos de qualquer área, mas não o fim de sua obrigatoriedade.

6. Não confundir opinião com jornalismo. Muitos dos que são contra a obrigatoriedade do diploma se equivocam ao usar artigos opinativos de especialistas como exemplos de bons trabalhos jornalísticos. O Decreto-lei 972/1969 não impede que especialistas de outras áreas escrevam como convidados ou como colaboradores. O que está em questão é se só a formação superior em jornalismo pode preparar alguém para exercer funções exclusivamente jornalísticas, como as de repórter, redator, editor e outras.

7. Ideologização e falta de verificação. Muitos daqueles que evitam o debate alegam que ele é “ideologizado”. No entanto, seja no sentido amplo ou no específico do termo “ideologia”, não é possível evitar aspectos ideológicos na discussão. O ponto relevante é que muitas manifestações têm sido feitas sem preocupação com a verificação e a análise de suas premissas. Nesse sentido, é lícito afirmar, como Rogério Christofoletti em seu blog Monitorando, que a “Discussão sobre o diploma está muito ideologizada” (negrito meu).

8. Não confundir exigência do diploma com regulamentação. A profissão de jornalista é regulamentada em muitos dos países em que não há o requisito de formação superior específica para ela. Enquanto o STF (Supremo Tribunal Federal) não se pronuncia sobre essa exigência e sobre a Lei de Imprensa, poderíamos avançar na discussão sobre os diversos modelos de regulamentação vigentes.

9. O debate não deve se restringir ao aspecto constitucional. Em que pese o fato de o tema estar prestes a ser julgado pelo STF, a discussão não deve ser restrita à tese da não recepção do Decreto-lei 972 pela Constituição Federal de 1988 (art. 5º, incisos V e XIII). É preciso também debater em seu mérito a exigência da graduação específica em jornalismo.

As divergências

É neste ponto que começam as divergências sobre as premissas dos debatedores. Nem mesmo o próprio Recurso Extraordinário 511961, do Ministério Público Federal de São Paulo, a ser apreciado por essa Corte, incorre na limitação do tema ao aspecto constitucional, na medida em que apela para outros dispositivos com força de lei no Brasil. Tratam-se da Declaração Universal dos Direitos Humanos, das Nações Unidas, e da Convenção Americana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos:

Declaração Universal dos Direitos Humanos. Artigo XIX.
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Convenção Americana de Direitos Humanos. Artigo 13.
Liberdade de Pensamento e de Expressão

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha.
2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito a censura prévia, mas a responsabilidades ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei a ser necessárias para assegurar:
a) o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas; ou
b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral públicas.
3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de freqüências radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de idéias e opiniões.

Omissão de professores

Ressaltei no debate aquilo que já disse várias vezes neste blog e em outros espaços: não se vêem respostas dos acadêmicos defensores da obrigatoriedade a diversas contestações explícitas a essa exigência, principalmente a manifestações de importantes teóricos da comunicação. Com essa omissão, eles, na condição de docentes e pesquisadores, renunciam a exercer plenamente o ethos acadêmico e, na condição de jornalistas, renunciam ao debate de idéias.

Um exemplo de estudioso da comunicação muito respeitado no Brasil e no mundo, e contrário à obrigatoriedade do diploma é Daniel Cornu, professor do Instituto de Jornalismo e Comunicação, da Universidade de Neuchâtel, de Lausanne, e diretor do Centro Franco-Suíço de Formação de Jornalistas, de Genebra. Mas não se vêem contestações à afirmação dele de que

O jornalismo é uma “profissão aberta”, que não exige formação específica ou diploma. Sua definição é tautológica: é considerado jornalista quem exerce sua atividade principal na imprensa escrita ou nos meios de comunicação audiovisuais. Mais precisamente, são reconhecidos como jornalistas os agentes da mídia, independentemente dos meios ou técnicas de expressão utilizados, que satisfaçam três critérios: a concepção e realização de uma produção intelectual, uma relação deste trabalho com a informação, além do critério de atualidade.
(Daniel Cornu. Ética da Informação. Tradução de Laureano Pelegrin. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1998, pág. 19.)

Apontei vários exemplos de omissões desse tipo nas postagens “Os defensores do diploma e seus debates imaginários”, de 08/08/2008, “A liberdade de expressnao e o diploma de jornalismo”, de 16/09/2008, assim como no artigo “Diploma de jornalismo”, publicado em 24/06/2005 na Revista Consultor Jurídico e também em 27/06/2005 no Observatório da Imprensa.

Condição necessária

Além desse argumento de ordem jurídica, apresentei outro, o de que a formação superior específica em jornalismo não é condição necessária — muito menos condição suficiente — para o exercício dessa profissão com base em seus preceitos técnicos e éticos. (Sobre os princípios éticos do jornalismo, Pomar ressaltou que não conseguiu aprovar em um dos congressos da Fenaj sua proposta de vedar, no Código de Ética, a participação de jornalistas em propagandas com fins comerciais. Concordo com ele.)

Se uma pessoa tem as qualificações mínimas para exercer a medicina, a engenharia, a odontologia, a veterinária e várias outras determinadas profissões, é porque ela teve formação específica nas respectivas áreas. Ou seja, é impossível neste início de século XXI, ter tais qualificações sem ter estudado na respectiva área acadêmica. Nesses casos, a formação superior específica é condição necessária para o exercício de tais profissões. Por isso, justifica-se sua obrigatoriedade nos termos do inciso XIII do artigo 5º da Constituição.

No entanto, se uma pessoa tem as qualificações mínimas para exercer o jornalismo, não podemos afirmar que ela necessariamente estudou jornalismo, o que é é atestado pelo que acontece em quase todo o mundo. O mesmo se aplica à publicidade, à administração (que é exercida também por economistas, engenheiros e formados em outras áreas) à música, às artes cênicas. Isso quer dizer que a formação superior específica não é condição necessária para o exercício dessas profissões. E é por isso que não se deve exigir formação superior específica para elas.

Falácia recorrente


Apesar de sua inegável disposição para a discussão, meus dois colegas debatedores da mesa não apontaram, em suas respostas às questões levantadas por mim e por alguns dos presentes ao debate, quais são as qualificações necessárias para o jornalismo que seriam obtidas exclusivamente por meio da formação superior específica. Minha tese é a de que esse é ponto, que nunca foi provado, sempre teve status de dogma. E foi o que sempre esteve por trás da confusão recorrente do jornalismo com profissões que exigem qualificações obtidas necessariamente por meio de cursos superiores específicos. Sem falar nos argumentos do tipo “então tem de abolir também o diploma de médico, engenheiro…”.

Reconheci no debate que, apesar da correção lógica desse argumento, não dá para convencer muitos dos defensores da obrigatoriedade do diploma a aceitá-lo. Mas ele deixa claro que é deles o ônus de uma complicada prova — que na minha opinião é impossível. Portanto, a alegação de que muitos críticos da obrigatoriedade confundem direito de expressão e exercício profissional se baseia em uma premissa: a de que a formação específica é condição necessária para qualificações exigidas pela profissão. Mas é justamente isso o que deveria ser discutido. Em outras palavras, essa alegação incorre naquilo que em lógica se chama falácia da petição de princípio.

Agradeço aos alunos da ECA-USP pela oportunidade de discutir esse assunto e pelo ambiente agradável que proporcionaram para isso. Agradeço também aos outros dois debatedores que participaram do evento: eles ressaltaram aspectos relevantes sobre a exigência do diploma e mostraram que o debate civilizado de idéias é possível mesmo em torno de um tema altamente polêmico como esse.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Da economia para a sustentabilidade


Newsletter Itaú Socioambiental

Eles têm trajetórias parecidas: ambos construíram uma carreira sólida cobrindo pautas de economia na grande imprensa e agora estão à frente de projetos próprios voltados ao tema sustentabilidade. O jornalista Adalberto Marcondes foi editor na Gazeta Mercantil, trabalhou na revista Exame, no jornal O Estado de S.Paulo e na Agência Estado, sempre na editoria de finanças e economia. Hoje é diretor de redação da Envolverde, revista digital que há dez anos está na web. “Quando saí da Agência Estado, em 1998, já estava há três anos fazendo, como freelance, o Terramérica, um projeto da ONU para o meio ambiente”, lembra Adalberto. “Decidi, então, criar a Envolverde, passando a trabalhar com jornalismo ambiental.”

A trajetória de Sônia Araripe, diretora do site e da revista Plurale, que completaram seu primeiro aniversário recentemente, é bastante semelhante, com passagens pelas redações do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo, O Dia, revistas Conjuntura Econômica e Forbes Brasil e Agência Broadcast. “Há uns cinco anos, fui para o mercado corporativo fazer assessoria de imprensa. Depois de um tempo, senti saudade de redação, foi quando surgiu a idéia de criar a Plurale em revista e Plurale em site. O projeto é meu e do Carlos Franco; ele fica em São Paulo e eu no Rio”, conta.

Nesta entrevista, Adalberto e Sônia falam do papel do jornalismo especializado na busca da sustentabilidade.

As pautas de economia e de sustentabilidade estão interligadas?

Adalberto Marcondes – Acho que a transição que o modelo econômico está passando agora é, justamente, promover a integração entre os aspectos econômicos, de responsabilidade social e sustentabilidade. O empresário americano Ray Anderson, um dos pioneiros em responsabilidade socioambiental empresarial, diz algo muito legal: “O objetivo de uma empresa não pode ser o lucro; o objetivo de uma empresa deve ser sua missão”. Lucro é apenas um dos componentes necessários para que uma empresa atinja sua missão. Quando você tem todas as empresas trabalhando sob essa ótica, tem uma nova economia. Uma economia voltada para satisfazer as necessidades reais das pessoas, e não simplesmente para gerar ganho para o acionista. Mas, entenda, gerar lucro é fundamental para que a empresa possa trabalhar pela sua missão.

Sônia Araripe – Quando comecei, meio ambiente e a área social eram guetos dentro do jornalismo. Poucas pessoas cobriam, poucas pessoas entendiam. Com o tempo, as empresas passaram a buscar sua sustentabilidade, e esse tema passou a ser recorrente. A imprensa, por sua vez, percebeu que não fazia sentido ter vários especialistas, um em meio ambiente, outro na área social, mais um em economia. O que faz sentido – e a nossa trajetória prova isso – é ter boas histórias para serem contadas. O nosso papel, como imprensa, é acompanhar o que aconteceu, e hoje está tudo muito integrado, como o Adalberto falou. As pautas se convergem. É imprescindível para um bom jornalista entender tanto de economia como de meio ambiente e da área social.

Quem são os leitores das matérias e dos artigos sobre sustentabilidade? Esse material desperta o interesse do público em geral?

Adalberto – Hoje, o perfil desse leitor é o mais variado possível. Qualquer pessoa pode ter interesse pelo tema sustentabilidade..

Sônia – Por isso acho importante que a matéria, o material produzido, não fale apenas para uma parcela da população. Tem que comunicar de forma simples. Afinal, é um assunto simples, não há nada de mirabolante.

Adalberto – Outra coisa que tem de ficar clara é que o que fazemos é jornalismo, não é militância. Às vezes, as pessoas dizem: “Você é ambientalista”. Não gosto desse rótulo. Sou jornalista. É óbvio que tenho informação sobre ambientalismo. É claro que, a partir do conhecimento, você adota comportamentos que o diferenciam. Mas o que praticamos é jornalismo. E digo mais, jornalismo da melhor qualidade.

Quais as principais dificuldades enfrentadas pelos jornalistas que cobrem o setor? Por exemplo, vocês percebem que a “disponibilidade” das fontes não é a mesma quando a matéria é sobre sustentabilidade?

Sônia – Não temos problemas. Pelo contrário, somos muito procurados para pautas. O assédio é constante. A grande imprensa, na verdade, não tem espaço; tem um caderno, uma coluna, uma edição especial, mas não é o suficiente. A mídia especializada é o principal canal para desaguar esses assuntos.

Adalberto – Esse assédio também existe em cima da Envolverde. Mas queria comentar uma preocupação que tive quando saí da Agência Estado. Sempre me achei um jornalista bem relacionado com as fontes. Mas tinha consciência de que isso estava ligado ao meu sobrenome profissional. Eles atendiam o Adalberto da Exame, o Adalberto do Estadão, o Adalberto da Gazeta. Quando me desliguei e montei a Envolverde, pensei: “será que vou ter o mesmo acesso? Hoje, acho que o meu acesso é melhor. A Envolverde completou dez anos. Tem uma história, é uma marca que está posicionada no mercado. Produzimos matérias não só para o site, mas conteúdos específicos para a Agência Estado e para o Instituto Ethos. Temos também parcerias com outras publicações que utilizam o nosso material. Isso faz com que, muitas vezes, assessores de imprensa ou diretores de empresas decidam falar primeiro com a Envolverde, porque sabem que entendemos do assunto e que algo que é publicado no site é rapidamente disseminado. Para se ter uma idéia, fiz uma matéria sobre o Projeto Arara Azul que foi republicada 240 vezes.

Sônia – Essa experiência da republicação que o Adalberto comentou é algo novo para mim. Vivi muito tempo no universo de exclusividade, das grandes empresas jornalísticas. Com a Plurale, abriu-se uma janela que acho espetacular, uma janela para a verdadeira democratização da informação. Vejo nessas parcerias entre empresas de comunicação que cobrem a área de sustentabilidade algo muito maior. Nós fizemos recentemente, por exemplo, uma entrevista com o doutor Israel Klabin que foi publicada em 22 sites. Isso é extraordinário, porque a informação não pertence a mim ou à revista. Mas se você se considera dono exclusivo daquele conhecimento, daquele saber, daquele assunto, aquilo não cresce, não frutifica. O que vemos é o contrário, a comunicação conseguindo chegar a todos.

Adalberto – É quase ideológico: o próprio desenvolvimento sustentável emerge de um processo colaborativo. Emerge de um processo de integração. A economia sustentável é uma economia que leva em conta todos os atores.

Como avaliam a posição das empresas: há dificuldade em obter informações precisas?


Sônia – Não tenho dificuldade. Apenas queria dar um recado para os nossos colegas que vendem as pautas: acho que têm assuntos excelentes que as empresas não estão conseguindo fazer com que cheguem ao conhecimento da imprensa. Histórias fantásticas, fáceis de serem contadas, como a de jovens em situação de risco que agora participam de um projeto, patrocinado por uma operadora de telefonia, no qual são capacitados para fazer jogos para computadores. A gente foi, acompanhou e me impressionou muito a história de um dos meninos, que disse: “Puxa, achava que seria gari como meu pai, mas agora não. Quero trabalhar com informática”. A produção dessa pauta só foi possível graças à indicação da assessora de imprensa. Trazer esses casos é um desafio para as empresas.

Adalberto – O jornalista que faz assessoria de imprensa tem que olhar para dentro da empresa e reconhecer as novas pautas. Sair daquela mesmice do resultado, do número, da frase do diretor, do programa de carbono, e construir novas pautas, construir novos enfoques.

E os jornalistas, estão preparados para cobrir o tema?


Adalberto – Tem gente boa. Já foi uma catástrofe, uma tragédia, mas agora tem gente da melhor qualidade. Tem também uma juventude entrando nessa área com vontade.

Comparando com outros países, como vêem a cobertura do assunto pela imprensa? A pauta de sustentabilidade tem espaço garantido nos veículos de comunicação?


Adalberto – A imprensa brasileira publica muita coisa sobre sustentabilidade. Às vezes, as pessoas acham que o tema não está na mídia, e não é verdade. Mas nem sempre foi assim. Vou dar um exemplo. Em 1990-1991, estava trabalhando em uma importante revista e a gente se reunia a cada quinze dias para fazer a pauta. Sistematicamente, quando eu começava a falar de algum assunto com a transversalidade socioambiental, algum dos meus colegas editores dizia: “Lá vem você com suas pautas alface”. Isso era recorrente. Era uma briga conseguir emplacar um tema. Agora, colegas da grande imprensa ligam pedindo ajuda ou solicitando a indicação de fontes. A pauta “alfacinha” ganhou um novo valor dentro da mídia.

Sônia – Concordo que cresceu muito o espaço destinado ao tema, estimulado pelo interesse do público. Até porque você não vai publicar o que o público não quer ler. Acho que a imprensa especializada também teve papel decisivo nesse processo. Os veículos especializados acabam formando, pautando a grande mídia. Mas ainda há muito espaço para crescer, assim como deve aumentar o interesse das pessoas pelo tema. O nosso desafio é transformá-lo em histórias comuns. Vai depender de como a gente escreve, para não ficar uma coisa para poucos.

Vocês perceberam mudanças desde que começaram a cobrir o assunto?

Adalberto – O mundo mudou. O mundo da década de 90, da segunda metade do século 20, é um mundo de uma série de romantismos que ficaram lá atrás. O mundo do século 21 é o mundo da realidade e dos limites, da realidade da exclusão social e dos limites ambientais. Não que a gente não tivesse essa percepção, mas os cenários econômico e político a ignoravam. As empresas também mudaram, e mudaram porque perceberam que esses limites impactam em seu negócio. Você não pode ter uma empresa de sucesso, inserida numa sociedade fracassada. Você não pode ter uma empresa de sucesso que vai ter sua matéria-prima esgotada em dez anos. Mudou o investidor. Nos anos 80, o investidor era um predador. Não se importava em que tipo de empresa estava investindo, queria apenas ter lucro. Hoje, o perfil é focado na perenidade. Por quê? Porque o grande capital está nas mãos dos fundos de pensão e eles não podem ter prejuízo, não podem comprometer a sua função primordial, que é pagar pensões. Se uma determinada empresa carrega passivos ambientais, passivos sociais, trabalhistas, ou se trabalha com produtos que a sociedade tende a rejeitar a médio prazo, os fundos de pensão acabam tirando o dinheiro dali. Enfim, a forma de a sociedade se relacionar com as empresas mudou.

Sônia – Vejo com muito temor o que chamo de “modismo da sustentabilidade”. Ser sustentável não é você criar um slogan bonito e adicionar à sua marca. Ser sustentável começa a partir de ações concretas adotadas no dia-a-dia. Acredito que, daqui para frente, o que vai fazer a diferença é o consumidor. Por muito tempo, a gente viu o consumidor americano como exigente. Já o brasileiro é aquele cara para o qual você empurra qualquer negócio. Mas isso está mudando. Se as empresas não estiverem preparadas para ficar mais próximas do consumidor, vão perder espaço.

(Envolverde/Newsletter Itaú Socioambiental)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mídia tem o dever de explicar o que é sustentabilidade

Por Luís Flávio Luz, da Agência Amazônia

BRASÍLIA – O foco do segundo dia da ECO2008 foi a inclusão das pessoas no processo de desenvolvimento sustentável e a construção de cidades verdes para reduzir as emissões de carbono na atmosfera. “Se você chega a uma comunidade que não tem o que comer para falar sobre consumo sustentável, parece um crime”, destacou a bióloga e filósofa Michèle Sato ao falar sobre a importância de erradicar a pobreza e a miséria, incompatíveis com a preservação ambiental.

O jornalista Washington Novaes , supervisor do Repórter Eco (TV Cultura) criticou a falta de debate nos meios de comunicação sobre as questões ambientais. Já havia feito isso em seus artigos em jornais e revistas.

“Você não encontra em nenhum jornal matérias sobre a emissão de metano pelo rebanho bovino brasileiro que é de 10 milhões de toneladas por ano”, exemplificou. “O problema é que para incluir estes assuntos o jornal tem que enfrentar entraves com o governo e com a publicidade”, completou.

Celebrar a natureza

A escritora e apresentadora da BBC de Londres Joanna Yarrow acredita que o papel da mídia é de envolver as pessoas para elas entenderem porque agir mais sustentavelmente. “No ano 2000 existiam 500 milhões de carros no mundo, em 2050 serão 5 bilhões.", disse.

"As pessoas precisam entender que é mais vantajoso ser sustentável”, afirmou a autora de “1001 maneiras de salvar o planeta”, editado no Brasil pela Publifolha.

“Temos que celebrar a natureza na organização das cidades”, explicou o arquiteto e teórico Richard Register (EUA). Segundo o especialista, cidades verdes são aquelas que usam usinas de energia solar, fazem a despavimentação de áreas para o plantio de florestas e parques no meio da cidade, reutilizam a água como uma forma de criar espaços sustentáveis, permitindo uma convivência direta com a natureza.


(Envolverde/Agência Amazônia)

sábado, 1 de novembro de 2008

Adalberto Marcondes, Davi Molinari e Dida Sampaio: o papel do jornalista diante dos desafios da sustentabilidade

Por Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

O Notícias da Semana está publicando entrevistas com todos os vencedores do Prêmio Ethos de Jornalismo 2008. Finalizando a série, os entrevistados da semana são Davi Molinari, vencedor da categoria Internet, Dida Sampaio, da categoria Fotojornalismo, e Adalberto Marcondes, que recebeu o Prêmio Destaque Rede Ethos de Jornalistas.

Entrevista com Adalberto Marcondes

Instituto Ethos: A Envolverde completou dez anos em 2008. O que mudou na cobertura dos temas relativos a responsabilidade social e sustentabilidade nesse tempo?

Adalberto Marcondes: Começamos a trabalhar nos anos 1990, ainda com o conceito de jornalismo ambiental. Publicávamos temas relacionados à preservação do meio ambiente e à proteção dos ecossistemas e dos recursos naturais. Isso passou por uma evolução nestes últimos dez anos, quando foram incorporados conceitos mais amplos de sustentabilidade, nos quais meio ambiente é apenas uma parte da equação. Essa equação hoje tem três variáveis: a econômica, a social e a ambiental. A Envolverde incorporou as três variáveis da sustentabilidade de uma forma muito transversal em suas pautas. Não paramos de cobrir meio ambiente e passamos a cobrir sustentabilidade. Continuamos escrevendo sobre temas ambientais e sobre temas relacionados a educação, desenvolvimento humano e economia, só que com a transversalidade do olhar da sustentabilidade.

IE: Como o jornalismo pode contribuir para o desenvolvimento sustentável? Por que os jornalistas deveriam pensar suas pautas a partir do olhar da sustentabilidade?

AM: Acho que estamos vivendo aquilo que se define como sociedade da informação e do conhecimento, na qual a informação e o conhecimento têm valor. Vejo o jornalista como um profissional capaz de transitar nesse universo e fazer com que ele se torne compreensível para a sociedade. O jornalista tem hoje um papel muito mais relevante, no que se refere à estruturação de papéis na sociedade, do que jamais teve. No século 20, o jornalismo teve um papel importantíssimo para a consolidação da democracia nos principais países do mundo. As nações mais importantes têm hoje processos políticos democráticos estabilizados e é muito difícil imaginar que alguma dessas grandes democracias do mundo possa sofrer uma reversão. A partir daí, o jornalista e o jornalismo têm novos desafios. O desafio agora é o de mudar o paradigma do desenvolvimento, encarar desenvolvimento como um processo equilibrado, que pensa o presente e o futuro como partes da mesma equação. O futuro será conseqüência do que a gente faz no presente. O jornalista tem hoje o grande desafio - que eu acho maravilhoso - de olhar para o mundo de uma forma muito mais ampla, tendo não apenas o olhar no presente, mas também na dimensão da perenidade.

IE: O Prêmio Ethos de Jornalismo foi criado para estimular a mídia a abordar mais profundamente os temas da responsabilidade social e da sustentabilidade. Acha que esse objetivo está sendo cumprido?

AM: Acho que premiar e prestigiar pessoas que estão fazendo um trabalho coerente e conseqüente em relação à sustentabilidade é sempre uma forma de mostrar que elas estão no caminho certo. Até porque muitas vezes esses profissionais, ao longo de sua carreira, enfrentaram problemas para se manter nessa trajetória. Foram incompreendidos, tiveram problemas para defender pautas em suas redações, perseveraram e muitas vezes conseguiram conquistar espaços que, sem um esforço pessoal, não seria possível. O prêmio tem a característica de reconhecer um trabalho bem feito, um trabalho na direção correta, que precisa ser replicado cada vez mais.


Entrevista com Davi Molinari

Instituto Ethos: Você foi premiado pelas matérias publicadas no Portal Inovação Unicamp. Por que a inovação tecnológica é importante para o desenvolvimento sustentável?

Davi Molinari: A inovação tecnológica é a principal via para uma sociedade sustentável. O exemplo mais visível é a aplicação da tecnologia que permitiu o aumento da produtividade agrícola. Nos dois últimos séculos, a tecnologia tem evitado que a teoria populacional de Thomas Malthus ganhe efeito. Pela lógica malthusiana, o crescimento da população é geométrico, enquanto o dos alimentos é aritmético. Ocorre que hoje se produz mais por hectare do que no passado. De toda forma, coincidência ou não, a produção de alimentos e o desenvolvimento urbano são os principais fatores de desequilíbrio e pressão sobre a fauna e a flora. Isso me faz pensar que a sustentabilidade, no sentido mais amplo e de longo prazo, só será possível se for equacionado o ritmo de consumo de uma população crescente com o ritmo de produção de maneira geral. Ou seja, o consumo responsável aliado ao aumento da produtividade (mais produtos com menos matérias-primas ou em menos hectares) é a saída para o equilíbrio da vida no planeta, que tem recursos limitados. A consciência pode até diminuir o desperdício, mas só a tecnologia pode prover o equilíbrio.

IE: Que tipo de incentivo representa vencer o Prêmio Ethos de Jornalismo, sobretudo nesta edição, que reconhece o conjunto da obra?

DM: O Prêmio Ethos reconhece o caminho que o portal Inovação Unicamp tem trilhado. Sob o comando da jornalista Mônica Teixeira, o portal tem conseguido jogar luz sobre as iniciativas de pesquisas e desenvolvimento tecnológico, as quais, uma vez financiadas com dinheiro público, viram negócios social, econômica e ambientalmente sustentáveis. É um noticiário eletrônico que acompanha o resultado prático dos investimentos feitos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe). As reportagens têm revelado que os pesquisadores estão cada vez mais voltados para o desenvolvimento de tecnologias que se transformam em negócios sustentáveis. Quando vemos tais reportagens receberem o prêmio de jornalismo do Instituto Ethos, nós nos certificamos de que estamos no caminho certo. E não há incentivo melhor do que a indicação do caminho a percorrer.


Entrevista com Dida Sampaio

Instituto Ethos: Você foi premiado por trabalhos relativos ao desmatamento e à Amazônia, mas seu cotidiano no jornal O Estado de S.Paulo, em Brasília, é na cobertura de pautas em política e economia. O que o levou a se interessar por reportagens sobre a sobre a floresta?

Dida Sampaio: Passei a cobrir a Amazônia para ajudar a preservá-la, para que as gerações futuras também possam usufruir dela e conhecê-la, porque, nesse ritmo de desmatamento, ela não vai durar muito tempo. A intenção de ir lá, ver, denunciar os abusos e a destruição na sua forma mais ampla é gerar uma discussão e, a partir disso, chegar a um denominador comum, que é preservar e atingir a sustentabilidade.

IE: Quais são as dificuldades de fazer esse tipo de cobertura num ambiente totalmente diferente daquele ao qual você está acostumado?

DS: Para falar de Amazônia, é preciso conhecer a Amazônia. É muito complicado chegar lá. Tem de ter uma logística, pois a floresta é muito adversa ao jornalista. Poucas pessoas querem ir à Amazônia para fazer matérias. É mais fácil ficar nos gabinetes com ar condicionado e tapetes vermelhos, fotografar rainhas e princesas, do que colocar o pé na lama e tomar chuva. Durante uma viagem de trinta dias à Amazônia, eu e o jornalista Lourival Sant?Anna percorremos lugares, conhecemos as pessoas e acompanhamos o drama delas. Numa vila, encontramos uma senhora que tinha perdido o filho quatro dias antes, por malária. E o outro filho dela, o caçula, também estava doente. Então tivemos de mudar nossa viagem e antecipar a volta para poder dar carona a essa mulher, no nosso barquinho pequenininho, para poder tirá-la daquela região, porque lá não tinha remédio para tratar a doença.

IE: Vencer o Prêmio Ethos de Jornalismo significa dar mais repercussão ao seu trabalho?

DS: Mais importante do que vencer é levar esse prêmio para uma discussão do meio ambiente, da sustentabilidade. Eu sou apenas um instrumento. Fico feliz de vencer, sem dúvida, mas fico mais feliz ainda em saber que os jornais estão publicando matérias sobre esses temas e que há jornalistas ganhando prêmios nessa área.


(Envolverde/Instituto Ethos)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Lições para uma comunicação sustentável

Por Ricardo Voltolini, da Revista Idéia Socioambiental

Fechando o ciclo de artigos sobre a comunicação da sustentabilidade, feito com base na análise da experiência de diversos países, é possível estabelecer a seguinte conclusão geral: a soma de consumidores mais críticos, mídia mais vigilante, investidores engajados, leis mais restritivas e auto-regulação crescente representa um risco em potencial para empresas que querem utilizar o atributo sustentável em sua comunicação. Ao mesmo tempo, pode significar também uma oportunidade.

A diferença entre um e outro extremo está no foco. Se a sustentabilidade for apenas um artifício de imagem (sem correspondência efetiva com a visão de negócios), ao qual a empresa recorre pontualmente para obter o bônus da simpatia pública sem o ônus da mudança de práticas, então ela terá que se preocupar – e muito – em “proteger” a marca contra a pressão de consumidores cada dia mais críticos e desconfiados. Se por outro lado, a empresa insere a sustentabilidade em sua estratégia e incorpora genuinamente os seus valores no modo de pensar e fazer negócios, ela certamente poderá adotá-la como elemento na construção de sua marca, usando a seu favor a crescente valorização do tema entre as pessoas de todo o mundo.

Em síntese, o que define, portanto, quanto de risco e de oportunidade há no uso da sustentabilidade para a comunicação da marca é a intensidade do compromisso e o nível de verdade nas práticas. Quanto mais claras e perceptíveis as incoerências, maiores os riscos. Quanto mais autêntica é a incorporação do tema na cultura da companhia, maiores as oportunidades. Simples assim.

Menos simples, no entanto, parece ser a tarefa de comunicar a sustentabilidade. Em todo o mundo, empresas e planejadores de comunicação enfrentam desafios que vão desde a escolha de conteúdos relevantes até as formas mais eficazes de transmitir as mensagens. Nesse terreno arenoso, a experimentação tem sido a regra. Olhando para a experiência internacional, a partir da leitura de estudos e guidelines, pode-se extrair oito lições gerais, muito úteis para quem deseja comunicar melhor a sustentabilidade. São elas:

(1) Senso comum importa sim - Antes de elaborar belos discursos, com palavras bonitas, os comunicadores deveriam avaliar o quanto os seus públicos conhecem o tema e como falam sobre ele. Uma organização internacional, chamada Futerra, deu-se ao trabalho de pesquisar a eficácia da linguagem da comunicação sustentável. E acabou elencando um conjunto de termos verdes (simpáticos e compreensíveis), amarelos (podem funcionar, mas ainda não se mostraram efetivos) e vermelhos (desagradáveis e facilmente mal interpretados). Não seria má idéia fazer o mesmo por aqui. Comunicação, já se sabe, não é o que se diz, mas o que se entende. Compreensão é mais importante do que qualquer rigorismo técnico.

(2) Sem culpa, porque culpa coloca para baixo – A sustentabilidade prega a escassez em um mundo cujo modelo mental predominante é o da abundância. Se as empresas quiserem emular mudanças de comportamento em nome de um novo tipo de desenvolvimento, devem evitar profecias catastrofistas, palavras acusadoras, termos inquisitórios. As pessoas não devem se sentir culpadas pelo problema das mudanças climáticas, mas co-responsáveis por sua solução. Humor ajuda. Otimismo é fundamental.

(3) “Nós” e “Você” – A sustentabilidade do planeta não é problema do outro, mas de todos nós. Boas mensagens são, portanto, as que adotam um tom inclusivo, próximo, leve, pessoal e humano. São as que nos tornam cúmplices do mesmo processo de mudança.

(4) Sustentabilidade é legal – Houve um tempo em que era tema exclusivo de ambientalistas. Hoje é preocupação mundial. Mas como a sustentabilidade prega a restrição, corre-se o risco de que suas mensagens (até as mais bem intencionadas) ou sejam metafóricas demais ou engajadas demais. O limite entre o engajado e o chato é tênue. Daí ter-se algum cuidado. A sustentabilidade só vai se espalhar como idéia se for vista como algo atraente, divertido, charmoso e associado a sucesso.

(5) Ser confiável – Se desejarem produzir confiança em consumidores cada dia mais desconfiados, as empresas que se utilizarem do discurso da sustentabilidade terão de ancorá-lo em fatos e evidências comprováveis. Do contrário, darão tiros no próprio pé.

(6) Contar histórias – Histórias geram empatia e despertam emoções poderosas. Em um mundo bombardeado por narrativas de toda espécie, as que tratam da sustentabilidade podem ter também o seu lugar de destaque se forem bem urdidas e bem contadas. Devem estar na boca de líderes de empresas, governos e organizações da sociedade civil. Líderes apaixonados.

(7) Heróis são importantes – Em escala mundial, a sustentabilidade ainda não fabricou grandes heróis. Ter em quem se inspirar ou a quem seguir, por convicção e crença, ajuda na comunicação da sustentabilidade. Heróis são mitos. E mitos estão impregnados na experiência humana. Empresas, comunidades, estados e países devem forjar os seus heróis da sustentabilidade.

(8) Grande quadro – A sustentabilidade é um dos mais importantes compromissos humanos deste início de século. Tem a ver com cada indivíduo e também com o coletivo de todos os indivíduos do planeta. Trata-se de uma grande revisão mundial de valores, práticas e comportamentos. Por isso, qualquer ação de comunicação deve explorar essas conexões, apresentar pensamentos no longo prazo e mostrar que o futuro começa agora.


* Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável. ricardo@ideiasustentavel.com.br

Leia Ricardo Voltolini todas as quartas-feiras aqui na Envolverde.


(Envolverde/Revista Idéia Socioambiental)

Sustentabilidade na mídia: é preciso ter boas pautas

Por Silvia FM*, para a Envolverde

Há espaço para a pauta ambiental, o que é preciso é ter boas pautas. “Dá pra vender muito bem”, afirma Eduardo Acquarone, editor dos Programas Fantástico, Profissão Repórter e criador do site Globo Amazônia da Rede Globo de Televisão. Depois de pouco mais de um mês de funcionamento, o site registrou o acesso de 30 milhões de internautas que hoje monitoram o desmatamento do bioma. A atração é o mapa interativo, atualizado até seis vezes por dia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Acquarone conta que ele mesmo achava que a Globo não iria comprar essa briga, de denunciar o avanço da soja e da pecuária na Amazônia. Mas para sua surpresa, a empresa não só comprou a idéia – que teve o dedo de uma amiga militante do Greenpeace – como pretende ampliar os serviços do site e a cobertura ambiental no ano que vem.

Essas foram algumas das revelações da mesa redonda Sustentabilidade na Mídia, moderada pelo jornalista Vilmar Berna, no primeiro dia do Encontro Latino-Americano de Comunicação e Sustentabilidade, hoje (16/10), no hotel Jaraguá no centro de São Paulo. Acquarone relata que não foi a empresa que se opôs, mas os próprios colegas da produção que precisaram ser convencidos da importância do assunto. Ele teve que explicar o que significava questões como a invasão de soja perto de Santarém, no Pará. E Acquarone conseguiu mostrar para a equipe e montar a matéria em conjunto com o Greenpeace. Resultado: uma matéria de 10 minutos flagrando a guerra dos ambientalistas com os grandes plantadores, que simplesmente chegam no meio da floresta, desmatam e espalham sementes de soja. Segundo o Greenpeace, 40% dessa soja é exportada para Europa, serve de ração para frango confinado. O produto sai da região pelo porto da Cargill.

E toda essa história foi contada em pleno horário nobre da Globo. O jornalista, que diz não ser ambientalista, lembra que o grande problema das redações é a falta de pauta. Só se trabalha as pautas quando o resultado é garantido. E a líder de audiência está constando, pelo Ibope, que a cobertura da situação da Amazônia vale a pena, mesmo sendo muito cara. “Só o aluguel de um monomotor sai 30 mil reais”, comenta.

Avaliação

Já Luciano Martins Costa, editor do Observatório da Imprensa, que analisa há oito anos a cobertura de imprensa, inclusive com um programa na Rádio Cultura, Rede Brasil e Rede Inconfidência, assegura que a imprensa está muito atrasada com relação à cobertura dos temas envolvendo a sustentabilidade. Ele conta um caso citado por uma jornalista da revista Época durante um evento da área. Ela revelou que se sentia participando de movimentos de vanguarda, mas se sentina recuando 10 anos quando voltava para a redação. “Na verdade, o retrocesso é de 20, 30 anos”, acredita Martins Costa. Ele recorda dos tempos do jornal “Estado de Alerta”, quando era enxotado das vilas Natal e Socó em Cubatão, por seguranças da Petrobras. E hoje a empresa vem mostrando o que tem feito pelo bem do ambiente, comenta.

Para Martins Costa, a imprensa não percebeu a evolução dos tempos, que hoje a questão da sustentabilidade não é assunto só de ecologista. Ele entende que o jornalista precisa vivenciar mais a importância do seu papel social na sociedade. Na sua avaliação, falta na maior parte dos profissionais da imprensa uma estrutura de valores que dê significado à profissão. “Acompanhei todos os processos de modernização dos jornais de São Paulo, a troca de profissionais mais experientes por menos experientes” comenta. Como resultado, as redações ficaram dominadas pelo perfil “Yes man e Yes woman”, menos crítico. Ele conclui que os editores hoje estão mais preocupados com o status do emprego, assumindo uma posição conservadora e resistindo a discutir os sistemas.

E o jornalista que já passou pelas redações da Folha de S. Paulo, do Estadão e da Veja aponta que a própria questão da sustentabilidade vem de um longo processo, desde o pós-guerra, passando pelo Clube de Roma, que nos anos 60 propôs a discussão sobre os limites do crescimento econômico, até chegar às atuais questões do aquecimento global e da crise do sistema financeiro.

Joaquín Costanzo, Diretor da IPS para América Latina, começou sua palestra lembrando o desafio da imprensa a manter as pautas da sustentabilidade com o grande assunto do momento: a crise do mercado financeiro. E observa: antes da queda das bolsas se falava que não havia dinheiro para resolver os problemas do aquecimento global. Mas de repente, surgiram três trilhões de dólares dos governos para salvar os bancos. “Há dinheiro para algumas coisas, para outras não”, pontua.

Para Costanzo, a crise ambiental é muito grave, é preciso resolver problemas comuns entre os países. Entretanto, para isso é preciso um jornalismo que faça análise dos fatos, que tenha profundidade. “É preciso tomar partido”, ratifica, para isso é necessário informação com consciência, para haver participação. Ele entende que a realidade da imprensa entre os países da América Latina é muito parecida. São poucas famílias que detém o poder da grande mídia.

Como exemplo, ele menciona o “Terramérica”, um suplemento que é publicado em 20 diários da América Latina (veja no site http://www.envolverde.com.br, às segundas-feiras), que tem uma boa receptividade do público. “É importante a permanência da periodicidade”, complementa.

* Silvia FM é jornalista freelancer e mora em Porto Alegre.

A cobertura do Encontro Latino Americano de Comunicação e Sustentabilidade está sendo feita por uma equipe de jornalistas. A coordenação é de Naná Prado e o material será publicado no site da Envolverde (http://www.envolverde.com.br) e do Mercado Ético (http://www.mercadoetico.com.br).

Crédito de imagem: Clóvis Fabiano


(Agência Envolverde)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL - A imprensa não entra no debate

Por Luciano Martins Costa em 9/9/2008 - do Observatório da Imprensa

As questões envolvidas nas expressões "responsabilidade social corporativa", "investimento social privado", "responsabilidade ambiental" e "sustentabilidade" ainda são tratadas na imprensa brasileira em nível muito superficial – e de maneira muito irresponsável, pode-se afirmar. Não bastaria dizer, como justificativa, que as mudanças de paradigmas sempre demoram a se concretizar e a compor tendências, que estaríamos vivendo um momento de transição e que, portanto, é natural esperar que as cabeças pensantes da imprensa se situem no novo contexto.

O problema da resistência da mídia em pelo menos entrar honestamente no debate deve ter outras causas. Primariamente, não seria respeitoso imaginar que ainda possa persistir entre jornalistas, articulistas, gestores e agregados aos meios de comunicação a ilusão de que a economia pode continuar crescendo em todo o planeta sem que se alterem as relações entre os processos produtivos e o patrimônio ambiental. Da mesma forma, seria debochar da inteligência emprestada à mídia considerar que ela aceita como inevitável a sucessão quase interminável de conflitos de toda espécie que compõem o cenário global, desde as brigas de gangues ao terrorismo internacional. Num ambiente social assim deteriorado, não há capital que resista por muito tempo.

Então, por que a imprensa segue impondo aos seus leitores e à sua audiência uma visão obsoleta do mundo, na qual a defesa do meio ambiente e a defesa da responsabilidade social do capital são apresentadas como teses de "naturebas" radicais que se opõem ao progresso do capitalismo, de velhos hippies deslocados na "pós-modernidade" ou de marxistas inconformados?

A inteligência da mídia sabe que não se trata disso. Mesmo a mais conservadora inteligência da mídia reconhece que o conflito ideológico contemporâneo tem a mesma raiz de todos os tempos – a manifestação de padrões desiguais de entendimento sobre o que seja utopia e o que seja ilusão –, mas a visão bipolar que marcou os séculos 19 e 20 não cabe nos paradigmas atuais, impostos pela globalização.

Caridade velha de guerra

A rigor, esse debate se resolve no ambiente científico, se considerarmos que a ilusão é a construção de perspectivas com base em premissas falsas e a utopia é a construção de perspectivas com base científica. Se alguém afirmar que é possível impor um "grande islã" planetário ou uma "irmandade do coração de Maria" global, a ciência vai ponderar que a humanidade busca naturalmente a diversidade como condição para sua sobrevivência, outros pensadores vão lembrar que o ser humano evolui no sentido da ampliação de sua consciência e sempre haverá alguém para decretar que a estupidez tem limites.

O que fica difícil entender é por que razão a imprensa se nega a deixar que o debate sobre a convergência dos desafios social e ambiental se estenda para o terreno onde ele realmente pode avançar, que é a questão do papel social do capital. Ou, dito de outra forma, sobre a natureza do capital. Dizer simplesmente que tal ou qual manifestação de preocupação com o destino do mundo, como a defesa do meio ambiente e a luta por igualdade social, é apenas arenga de velhos comunistas, equivale a chamar o leitor de estúpido. Mais do que isso, representa falta de responsabilidade social, descumprimento do papel social da imprensa de estimular a inteligência da sociedade.

Visto pelos próprios olhos da imprensa, o estado do mundo indica que a equação planetária não se resolve plantando mudinhas de ipê no jardim da empresa ou doando parte dos lucros e alguns computadores usados para a escolinha de capoeira dos negrinhos da Vila Nhocuné. Ou, para evitar mal-entendidos, para a população carente da Vila Nhocuné, onde se pode identificar grande número de infantes afro-descendentes. Sim, porque a imprensa pode ser ao mesmo tempo, contraditoriamente, socialmente irresponsável e politicamente correta.

Há muito conhecimento disponível sobre as causas defendidas por ambientalistas e pelos praticantes da gestão pela sustentabilidade que indicam a premência de incluir entre as variáveis do balanço das empresas a questão ambiental e a capacidade do capital de produzir resultados sociais tão positivos quanto seus lucros financeiros. Mas o padrão na imprensa ainda é afirmar que "o lucro é a razão de existir da empresa", fazendo a concessão segundo a qual, tendo lucros, uma empresa pode distribuir uma parte de seus resultados sob a forma da responsabilidade social. Alguns chegam a acrescentar o bordão de origem cristã pelo qual, ao doar parte de seus ganhos, o capital estaria demonstrando sua gratidão pelas bênçãos de seus lucros. A velha e boa caridade travestida de responsabilidade social.

Responsabilidades recíprocas

Essa visão obsoleta da questão social não merece os bits de uma linha na tela do computador, mas é a idéia que predomina na imprensa. Raramente se observa, em qualquer jornal ou revista, uma reportagem ou análise que contemple, por exemplo, os novos padrões de risco que desafiam os empreendedores, as novas métricas que permitem tangibilizar perdas e ganhos sociais e ambientais, ou, um pouco mais adiante, questões como capital e democracia, capital e igualdade social, capital e garantia de usufruto dos bens naturais para as futuras gerações.

Um exemplo desse anacronismo da imprensa é a abordagem da questão do aquecimento global. Mesmo que haja cientistas de boa reputação criticando pontos do relatório sobre mudanças climáticas que assombrou o mundo em fevereiro de 2007 – e os há, sim, misturados a picaretas financiados pela indústria poluidora – a questão ambiental não tem, nunca teve, como vértice o problema meteorológico. O aquecimento global é apenas uma bandeira adicional, que foi irresponsavelmente empunhada pela imprensa em todo o mundo, criando um catastrofismo que, em vez de inspirar mudanças de comportamento, provoca o fatalismo conformista que nada muda.

A verdadeira questão do movimento ambientalista e do movimento por responsabilidade social se baseia no princípio segundo o qual os indivíduos são responsáveis pelo todo social e ambiental. Segundo esse princípio, a responsabilidade de usar os meios disponíves não se limita à imposição de limites horizontais, que definem os direitos compartilhados com os contemporâneos, mas também aos limites verticais, que significam o respeito ao direito futuro das gerações que ainda estão por vir, e o respeito ao passado, ao modo de vida de populações que preferem seguir o caminho da evolução social à sua maneira e em seu próprio ritmo.

São responsabilidades recíprocas e correspondentes, e nada têm a ver com opções do tipo esquerda-direita, como dá a entender a visão reducionista predominante na mídia.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

RETRATO DA AMAZÔNIA - O que mostra uma boa reportagem

Por Luciano Martins Costa em 8/9/2008

Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 8/9/2008

A reportagem publicada no fim de semana pelo Estado de S.Paulo poderia ser usada como tema de uma aula sobre responsabilidade social, assunto que a imprensa costuma ignorar, quando não o trata com absoluta superficialidade. Os repórteres pintam um retrato chocante da região amazônica, onde os royalties do petróleo, do gás e dos minérios produzem ainda mais miséria.

Em Coari, no Amazonas, Juruti e Parauapebas, no Pará, empresas cujos relatórios de sustentabilideade brilham de tantas ações generosas são apontadas como responsáveis pela desagregação social e por um dos mais graves casos de exploração sexual de crianças e adolescentes que a imprensa já registrou no país.

Ali atuam a Vale do Rio Doce, a Alcoa e a Petrobras, empresas cujas ações cintilam nas bolsas de valores e cujos departamentos de marketing vendem a imagem da sustentabilidadee e da responsabilidade social. Mas a realidade constatada pelos repórteres do Estadão é a do contraste entre o crescimento econômico e o crescimento da violência e da corrupção.

Boas intenções

A reportagem deixa claro que, 34 anos depois da abertura da Transamazônica e 25 anos depois do auge do garimpo em Serra Pelada e da construção da hidrelétrica de Tucuruí, o Brasil ainda não foi capaz de produzir uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia que não seja simplesmente mais uma porta para a miséria e a exploração de seus habitantes e de seu patrimônio natural.

Exatamente onde mais jorra o dinheiro dos royalties pagos pelas empresas que extraem petróleo, gás e minérios, os números da exploração sexual de crianças e os índices de qualidade de vida são piores do que os das demais cidades da região.

Os dados apresentados pela reportagem são inquestionáveis: somente em Coari, com a chegada da Petrobras, o número de mães com até quinze anos de idade subiu de 1,7% para 13,9% do total de partos por ano.

As empresas que exploram as riquezas da região recheiam seus relatórios de sustentabilidade com belas iniciativas e as melhores intenções. Mas nada como uma boa reportagem para colocar por terra toda propaganda.

De O Estado de S. Paulo - Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil

Ao lado dos lucros com petróleo e mineração, 3 cidades amazônicas vêem crescer abusos e gravidez precoce

Leonencio Nossa, enviado especial de O Estado de S. Paulo

Na foto, 'menina do trem' em Parauapebas

Celso Junior/AE

Na foto, 'menina do trem' em Parauapebas

COARI (AM), JURUTI (PA) e PARAUAPEBAS (PA) - Os novos eldorados econômicos da Amazônia apresentam números de exploração sexual de crianças e índices de qualidade de vida na infância piores que os de outras cidades na floresta, informam os enviados especiais do Estado à região Leonêncio Nossa e Celso Júnior. Leia reportagem completa na edição do Estado deste domingo.

Veja também:

Galeria de fotos: prostituição infantil na Amazônia (Copiar e colar no navegador)

http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowGaleria.action?idGaleria=975

Líderes na arrecadação de impostos e royalties de gás, petróleo, bauxita e minério, os municípios de Coari (AM), Juruti e Parauapebas (PA) vivem um boom econômico, mas registram, ao mesmo tempo, índices de violência contra meninas proporcionalmente semelhantes aos que surgiram nos anos 70, no rastro da traumática experiência de desenvolvimento impulsionada pela Rodovia Transamazônica, pela mina de Serra Pelada e pela hidrelétrica de Tucuruí.

Após 34 anos da abertura da Transamazônica e de 25 anos do auge do garimpo e da inauguração da usina, a Amazônia desses municípios repete padrões de crescimento igualmente destruidores, tem gestões públicas sem transparência, além de ignorar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A estatística das meninas grávidas com idade até 15 anos é o retrato fiel da situação. Das mulheres que tiveram filhos no Brasil, nos primeiros seis meses deste ano, 1,3% estavam nessa faixa. Esse índice cresce nos Estados do Amazonas e do Pará para 1,9%, mas é dez vezes maior em Coari, 13,9% - em 1995, um ano antes da chegada da Petrobras à cidade, 1,7% das grávidas do local tinha idade abaixo de 15 anos.

Parauapebas registrou no primeiro semestre deste ano uma taxa de 2% de grávidas com idade abaixo de 15 anos. Em Juruti, do total de grávidas atendidas no hospital local, no ano passado, 2,5% tinham idade abaixo de 15 anos - esse porcentual foi de 0,9% em 1995.

Nos projetos de prefeituras e empresas que lideram a atividade econômica nesses locais - Alcoa, Vale e Petrobrás - sobram intenções e faltam objetivos práticos que mudem o panorama. E não é por falta de dinheiro.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Teor de enxofre no diesel: É um lixo só, artigo de Miriam Leitão

Um absurdo acontece nos nossos narizes. Quando respiramos nas grandes cidades, inalamos enxofre expelido pelos combustíveis, principalmente o diesel.
Nos Estados Unidos, Europa, Taiwan e México, o teor de enxofre no diesel já caiu. No Brasil, há sete anos, uma resolução determinou a limpeza do combustível. A Petrobras garantiu que vai cumpri-la em 2009. Não cumprir tem custo financeiro e em vidas humanas.

A resolução 315 do Conama, Conselho Nacional do Meio Ambiente, de 2002, estabeleceu que o diesel brasileiro teria que ter 50 partes de enxofre por milhão.

Este é um movimento mundial e, comparado ao produto de outros países, o nosso é um lixo só. Nos Estados Unidos, há anos, já foi atingido o nível de 50 partes por milhão (ppm).

Agora se busca a meta de 15 partes por milhão. Na Europa, a meta hoje é de 10 ppm. No Brasil, o diesel tem 500 partes de enxofre por milhão nas grandes cidades e 2.000 no interior do país. A gasolina tem 1.000 ppm. Porém o diesel preocupa mais porque é um composto mais pesado; as partículas emitidas são mais danosas à saúde humana.

Se a regulação do Conama, enfim, entrar em vigor no ano que vem, o nível de enxofre cairá para 50 ppm tanto no diesel das grandes cidades quanto no do interior.

Mesmo quando chegarmos lá, estaremos atrás do México, que hoje são 50 ppm e, no ano que vem, vai para 15. Taiwan chegou aos 50 ppm há 4 anos. No Canadá, que tem um petróleo pesado, eram 340 ppm, hoje são 30. São vários os países grandes e médios que já vêm atingindo níveis cada vez menos nocivos.

Este caso contém os sinais de vários defeitos do Brasil: o excessivo poder da Petrobras; a ineficiência dos órgãos regulatórios, principalmente da ANP; o descaso com a saúde do cidadão; o lobby da indústria automobilística.

O Conama deu um enorme prazo para que a sua determinação fosse cumprida, mas a Agência Nacional do Petróleo, que teria de informar as especificações técnicas dos combustíveis, deixou o tempo correr. Só em outubro e, após muita pressão de entidades como o movimento Nossa São Paulo, OAB, Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, entre outros, divulgou as especificações.

Começou então um movimento para adiamento da entrada em vigor da resolução, marcada para janeiro de 2009. Ou, pelo menos, para uma implantação gradual.

As entidades reagiram.

O Ministério do Meio Ambiente avisou que não vai aceitar adiamentos. Na sexta-feira mesmo, o ministro Carlos Minc reiterou isso, dizendo que exigirá compensações da Petrobras e da Anfavea caso elas não cumpram o prazo. Procurada pela coluna, a Petrobras garantiu, também na sexta-feira, por escrito, que “a Companhia vai fornecer o diesel 50 ppm a ser utilizado pelos veículos com tecnologia P-6 da resolução 315. Este produto já está inclusive disponibilizado pela companhia para testes por parte da indústria automobilística”.

Este diesel cheio de enxofre é o principal culpado pela poluição gerada pelo trânsito. A poluição causa várias doenças respiratórias e até câncer de pulmão; 5% dos casos são causados pela poluição. No mundo, 2 milhões de pessoas morrem por ano com doenças decorrentes da poluição do ar.

O professor Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, coordena um levantamento que mede a incidência de poluição em grandes cidades: Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Segundo ele, o monitoramento era muito falho, o que faz com que se argumente, muitas vezes, que só São Paulo e Rio têm problemas com a poluição: — Todas essas cidades em que fizemos a pesquisa estão com níveis acima do que é recomendado mundialmente.

Apenas Recife está só um pouco mais alto.

O professor fez uma conta considerando a população economicamente ativa, entre 20 e 60 anos, na região metropolitana de São Paulo; ele chegou a um custo de US$ 1,5 bilhão, por ano, por causa de problemas decorrentes da poluição. Ainda que só 10% da frota sejam a diesel, esse combustível é o responsável por 50% das emissões do material particulado fino, que forma a fumaça preta, que é um dos maiores responsáveis por mortes e doenças respiratórias do país. De acordo com Paulo Saldiva, a poluição é a causa de cerca de 400 mortes por ano só na cidade de São Paulo.

O professor Roberto Schaeffer, da Coppe, pondera que o problema da poluição não é apenas o diesel nos ônibus e caminhões. O carvão como fonte de energia emite muito enxofre. É uma importante parte da matriz energética da Europa, da China e da Índia: — O mais importante é a concentração de poluente no ar. O Brasil hoje é relativamente menos poluído devido à matriz energética.

Quem respira o ar de São Paulo dificilmente concordaria com isso. Não precisa ser especialista em saúde para saber que respirar enxofre provoca vários danos aos seres humanos. Não precisa ser economista para saber que isso representa maior custo fiscal, pelo impacto na Saúde. Não precisa ser especialista em regulação para saber que alguma coisa está errada num país em que a determinação de um conselho ambiental feita com tanta antecedência precisa da pressão da sociedade civil, dos especialistas, dos ambientalistas, para que se tenha esperança de que ela será cumprida.

A Petrobras, em sua nota, disse que vem retirando gradativamente o teor de enxofre do diesel e da gasolina desde o começo dos anos 90 e garante que investiu US$ 1,6 bilhão de 2000 a 2007 para melhorar a qualidade dos combustíveis.

Não há razão para novos adiamentos, a tecnologia de redução de enxofre já está dominada e é um imperativo de saúde pública.

Artigo originalmente publicado no Painel Econômico, do O Globo, 03/08/2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Informação para a sociedade

por Dal Marcondes

Participo de diversas redes de comunicação, e uma delas é a Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais. Esta rede, que está completando 10 anos, reúne jornalistas e estudantes de comunicação que atuam com pautas ambientais em todo o Brasil, além de ter alguns observadores internacionais. Creio que os profissionais que atuam com as pautas mais relevantes em termos ambientais estão inscritos na RBJA, atualmente são cerca de 500. Muitas das mais importantes denúncias e reflexões sobre a cobertura da mídia sobre meio ambiente no Brasil e no mundo passou por esta rede, que funciona em um sistema de grupos do Yahoo.

Nos últimos tempos os debates têm se concentrado no formato de financiamento de informações sobre meio ambiente para a sociedade. Existe certo consenso de que as transformações nas relações de produção e consumo, necessárias para a construção de um modelo de desenvolvimento ambientalmente menos agressivo, passam pela informação que sociedade recebe sobre os impactos causados pelo atual modelo, e pela difusão de alternativas de boas práticas. Desta forma cidadãos/consumidores podem decidir de forma mais elaborada suas opções de participação e consumo.

A sociedade precisa de informações para perceber quais são os desafios e empreender no caminho da sustentabilidade. Contudo, se os desafios não são colocados pela mídia, não haverá reação. Afinal, não se pode enfrentar obstáculos desconhecidos. De uma forma geral a mídia brasileira está publicando mais matérias sobre meio ambiente, no entanto, a pauta ainda é focada em temas pontuais. Tem matérias sobre os índices de desmatamento da Amazônia, sobre acidentes ambientais e alguma coisa voltada para a educação ambiental de forma lúdica.

Poucos são os veículos de comunicação que trabalham a informação de forma coerente dentro de paradigmas de sustentabilidade. Isto quer dizer um olhar sobre a notícia que leve em conta o respeito ao meio ambiente, a responsabilidade social e o desempenho econômico. Estas poucas mídias precisam de recursos para manter equipe, pagar gráfica e manter uma estrutura empresarial que a mantenha como uma opção informativa para a sociedade. Desde o início dos anos 90 várias mídias surgiram com este propósito. Muitas não conseguiram sobreviver e algumas ainda estão ai trabalhando os mesmos desafios para se manter desde a sua fundação. A maior parte das mídias chamadas “ambientais” são feitas por profissionais de destaque no campo do jornalismo e não por pessoas que não conseguiram vencer em outras áreas. Exemplos disso são Vilmar Berna, editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente, Lúcia Chaib e Renné Capriles, editores da Eco 21, Cecy Oliveira, editora do Portal Água on line, Hiram Firmino, editor do JB Ecológico e muitos outros colegas.

Apesar dos diferentes modelos editoriais, os desafios de financiar a atividade são os mesmos, não há recursos financeiros suficientes para que estas mídias galguem um espaço de destaque, com alcance suficiente para debater nacionalmente os paradigmas de produção e consumo. Mídias não são transformadoras por si, mas são capazes de oferecer as informações e conhecimentos necessários para que a sociedade reflita sobre suas escolhas.

Não há no Brasil nenhuma discussão relevante sobre modelos de financiamento à informação para a sociedade. Quem paga jornais, revistas, TVs e internet é o mercado publicitário, sem nenhum (ou pouco) juízo de valor sobre que tipo de informação está financiando para a sociedade. Nem ao menos as verbas publicitárias de organismos de governo são utilizadas com uma avaliação sobre os conteúdos das mídias onde publicam seus anúncios. O que de fato existe é um comércio de público. As agências de publicidade compram público em uma relação de “custo por mil”. As mídias convencionais sabem disso e, portanto, trabalham com o tipo de informação que maximize seu público.

Até agora não há novidade no que estou dizendo. Mas, quando jornalistas que cobrem pautas ambientais começam a questionar o modelo publicitário para o financiamento das atividades das mídias que atuam com pautas ambientais e de sustentabilidade, levantando supostos “conflitos de interesse”, é sinal de que está na hora de estudar como manter estas publicações.

Alguns itens merecem reflexão:

• Nenhuma mídia no Brasil jamais conseguiu se manter apenas com assinaturas e vendas em bancas.

• Jornalismo, seja ambiental ou pela sustentabilidade, é atividade profissional e deve ser remunerada.

• A produção de jornalismo de boa qualidade envolve custos.

• O Brasil registra avanços na gestão ambiental e as mídias ambientais têm uma contribuição importante para isso.

• Não ter mídias ambientais seria um retrocesso da sociedade

Então, como fazer? Desde que comecei a atuar em jornalismo, no início dos anos 80 do século passado, aprendi que existem basicamente dois tipos de pautas jornalísticas:

• A pauta sobre coisas que o público deseja;

• A pauta sobre coisas que o público precisa saber;

Estas duas pautas têm papéis diferentes na formação de uma sociedade. A primeira está ligada ao entretenimento, à cultura, esportes, lazer etc. A segunda tem uma relação direta com a construção da cidadania, com a estruturarão de política públicas e com a necessidade de difundir-se conceitos nem sempre fáceis de se transmitir.

Bom, trabalhar com pautas ambientais está mais para a segunda opção, aquela que elege a informação necessária para a sociedade como mote principal de pauta. Isto quer dizer, principalmente, que muita gente não vai ler, ver ou ouvir. Isto não significa, no entanto, que não sejam pautas fundamentais para a sociedade.

Os debates que estão ocorrendo na RBJA mostram que o Brasil precisa ir mais longe na discussão de que País pretende ser. Há distintos modelos de mídias, cada uma com um papel diferente na formação da sociedade e as mídias que atuam com temas de alta especialização precisam de um modelo próprio de financiamento. Isto engloba o jornalismo científico, o ambiental, o de cidadania, o étnico e muitos outros.

O exercício profissional do jornalismo de qualidade exige recursos financeiros. Por enquanto os únicos disponíveis vêm da publicidade. Mas não precisa ser assim para sempre. (Envolverde)