segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Para que mídias ambientais?

Por Carlos Tautz

Mídias jornalísticas inteiramente dedicadas a assuntos sócio-ambientais são viáveis do ponto de vista econômico, independentemente de sua importância para a discussão de assuntos vitais para a humanidade? Há interesse dos leitores/ouvintes/espectadores que justifique a existência de jornais, revistas, programas de tevê, de rádio e sites de informações sócio-ambientais? Anunciantes estão dispostos a sustentar publicações que eventualmente farão uma cobertura crítica em relação aos prontos veiculados nos espaços comerciais? Ou será que os jornalistas dedicados a cobrir o desenvolvimento precisam imaginar outro tipo de financiamento para as mídias ambientais, para além do mercado publicitário convencional, sob pena de não encontrarem outro caminho para suas publicações que não a bancarrota?


Pela segunda vez, sempre organizados pelo Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), estes debates acontecerão no Fórum Social Mundial. A oficina "Estratégias de Sobrevivência para as Mídias Ambientais" acontecerá no dia 28, tentando, como diz o coordenador do NEJ-RS, Juarez Tosi, "avançar para propostas concretas".

Vão tentar elucidar o problema o próprio Juarez Tosi, João Batista Aguiar, um dos editores da EcoAgência Solidária de Notícias Ambientais (lançada no FSM de há dois anos), Adalberto Marcondes, editor pela recém-lançada revista e diretor da Ecomídias (uma associação de pequenos (em tiragem) veículos sócio-ambientais e membro da Rede Paulista de Jornalismo Ambiental, André Muggiati, assessor de imprensa do Greenpeace Amazônia, e Aldem Bourscheit, assessor de imprensa do Ministério do Meio Ambiente.

Pessoalmente, as chamadas mídias ambientais permanecem necessárias. Em primeiro lugar, são elas, e não os veículos de interesse geral, que são capazes de fazer o debate aprofundado dos problemas e alternativas sócio-ambientais e que terminam pautando a boa cobertura de publicações de maior tiragem e audiência. A chamada imprensa grande tem um tempo e uma dinâmica diferentes das necessidades impostas pelas funções educativa e informativa dos veículos dedicados ao tema sócio-ambiental, que não são espremidos pela necessidade de espetacularização da notícia, que é boa para vender jornal mas incapaz de prover uma boa explicação.

Dois grandes obstáculos se colocam às mídias ambientais e aqui não vou citar nenhuma delas, para não correr o perigo da omissão e injustiça. O primeiro obstáculo é a forma pouco criativa, envolvente e atraente como, regra geral, todos os temas são tratados na imprensa especializada. Em média, o tratamento que uma informação nesses veículos foca o seu aspecto educativo e se preocupa menos com o gancho jornalístico que expõe ao público a sua relevância. Angaria, assim, muito menos atenção do que merece.

As mídias ambientais também pecam pela sua pouca estruturação administrativa e comercial, o que talvez seja fruto de um impulso inicial no sentido de, mais uma vez, educar o público. Esse movimento, extremamente louvável, acaba, assim, mascarando o imperativo, elementar, para a continuidade de qualquer negócio seja ele de
finalidade lucrativa ou não: a construção das bases de sustentação econômica e financeira.

A esses dois problemas, específicos, alia-se outro, que igualmente atinge as empresas de comunicação de todo o mundo. Seus esquemas de financiamento (legalmente, só pode haver dois: venda de espaço publicitário e venda de assinaturas) são insuficientes para sustentar a atividade da imprensa, porque, nos últimos 10 anos, mais ou menos, tanto a internet como fonte concorrente de informação desenvolveu-se muito quanto os anunciantes encontram outras mídias mais eficazes para a veiculação de suas informações publicitárias. Mídias não-jornalísticas e, portanto, não-questionadoras das informações que veiculam.

É uma tarefa dessa importância, e dessa dificuldade, que os debatedores
no FSM terão pela frente.

(*) Jornalista

(Agência Envolverde)

2 comentários:

colunazero@gmail.com disse...

Muito bom!
Achei muito pertinente a abordagem deste tema. É indiscutível a importância das "mídias ambientais", já que essas possuem um único tema a ser discutido, diferente dos grandes meios que em termos de debate, são apenas bons veiculadores de idéias.
A maioria das pessoas não tem paciência para ser informar sobre sustentabilidade, preservação, impactos ambientais, aquecimento global e demais assuntos ambientais. Na minha opinião de publicitário, é preciso encontrar um nicho e uma linguagem específica para atender esse nicho.
Sem querer fazer propaganda (o que seria patético), venho seguindo essa idéia no meu site para abordar a questão de preservação, mas aliviando o tema com um pouco de humor e outros assuntos, ou seja, fazendo da preservação ambiental um estilo de vida.
Não sei se sigo o caminho certo, o tempo me dirá. Mas pelo menos, sigo um caminho diferente do que está estabelecido.
Para finalizar gostaria de parabenizar pelo blog, pois você segue uma linha totalmente diferente, uma agregadora de informação.

Abraço,

Bruno Rezende

www.colunazero.com.br

silviamarcuzzo disse...

Parabenizo o colega Tautz pelo texto.

A questão é tão complexa que os próprios jornalistas que promovem eventos como esse não têm condições de irradiar o que rolou no evento.

Alguém cobriu?

Confesso que não vi?

Gente, o que falta é uma articulação, a adoção de uma estratégia de como colocar as informações mais importantes da "era da sustentabilidade" na mídia.

Nesse sentido, os profissionais criativos fazem o que podem para propagar os outros lados da notícia.

E viva a Envolverde! o Dal!

E viva os artigos do Luciano no Brasil Econômico!

E VIVA O guerreiro Vilmar, que há anos toca a Rebia!

E VIVA o CARBONO BRASIL!a Paula!

E Viva os colegas do NEJ, que fazem o trabalho de forma VOLUNTÀRIA! (mas vale ressaltar que boa parte deles são funcionários públicos, tem seus salários garantidos no final do mês).

Enfim, acho que todos que conseguem se manter nesse universo precisam ser valorizados, especialmente por nós jornalistas que sabemos o quão difícil é manter os lados administrativos, financeiros etc em dia.



Silvia, de Forno Alegre